soneto XXXIV

Em ti eu encontro minha parte
pedaço de mim desconhecido;
esse eu que vive em ti tem arte
não é o mesmo eu que tenho sido...

O ser que fez em ti seu estandarte
sou eu, no meu corpo esquecido;
vive em ti, na ilusão de amar-te
eu mesmo... dentro de mim saído...

Agora só em ti é que eu me vejo
sou uma sombra feita num desenho
dando-me um mundo que não tenho...

És tudo. Nada. Apenas um desejo.
Vou-me nessa paixão - e comigo levo-a -
e o meu sonho se desfaz em névoa...


soneto XXXVI

Jamais o tempo, que passa e não pára
e põe num vazio o instante perdido,
há de negar-nos por termos vivido,
o ódio, o amor... e as rugas na cara.

Nascer, morrer... tudo faz sentido
a dança da vida é beleza rara.
À lei do cosmos nada se compara:
tudo é feito do mesmo tecido.

A vida náo é um sonho que desfaz-se
nem um corpo pálido, sem glória,
dentro d'um espírito sem face.

Viver é um breve tempo, o compasso
das horas, relógio sem memória,
um brilho girando no espaço!

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